As finanças do Atlético-MG em 2021: campeão vê seu projeto vencedor ameaçado pela maior dívida do futebol brasileiro | negócios esportivos

Em linhas gerais, as mineradoras não esperariam os resultados de uma reestruturação administrativa e financeira para só então investir. Com o dinheiro emprestado dos patrões a juros baixos, o Atlético-MG qualificaria o futebol ao mesmo tempo em que arrumava a casa.

Os resultados esportivos apareceram. Em 2021, o clube conquistou seu segundo Campeonato Brasileiro, após um hiato de 50 anos desde o primeiro, conquistou a Copa do Brasil e chegou às semifinais da Libertadores. E as finanças?

Neste relatório, a ge explica aos fãs os números contidos nas últimas demonstrações financeiras, referentes ao ano passado, e projeta as principais consequências da situação para o presente e para o futuro.

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As finanças do Atlético-MG — Foto: Infoesporte

A boa notícia é que a receita do Atlético-MG aumentou muito em 2021, impulsionada principalmente pelas premiações das competições, mas não apenas elas. Os investimentos na qualificação do futebol mostram seu valor nesse aspecto, na medida em que aumentam as receitas.

A má notícia é que, embora o fluxo de dinheiro tenha aumentado, a crise financeira continua grave, algo que é percebido principalmente pelo nível de endividamento. Com R$ 1,3 bilhão, o clube mineiro tem a maior dívida do futebol brasileiro e está longe de ter dinheiro para pagá-la.

A relação entre renda e dívidas do Atlético-MG

Fonte: Demonstrações financeiras

A análise da receita começa pelos direitos de transmissão e prêmios, cuja origem está nesses mesmos direitos para competições como Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil e Libertadores. É preciso entender por que essa receita disparou.

Como o Brasileirão 2020 terminou apenas em 2021 por causa da pandemia, parte de seus pagamentos foi adiada para o próximo balanço. Ou seja, a receita do ano passado foi inflacionada por pagamentos que teriam pertencido aos atrasados ​​em condições normais.

Além disso, com o ganho de desempenho, a associação alvinegra aumentou muito a parte variável. Os prêmios são pagos na Copa do Brasil e na Libertadores à medida que as equipes avançam nas etapas. Com a alta do dólar, as transferências da competição continental, feitas pela Conmebol, subiram.

O perfil de faturamento do Atlético-MG em 2021

Fonte: Demonstrações financeiras

Na área comercial e de advertising and marketing, o Atlético-MG mais que triplicou o valor registrado em 2020. Em 2021, foram contabilizados R$ 77 milhões, número que inclui patrocínios e licenciamentos.

As receitas diretamente ligadas aos fãs também explodiram. Mesmo que a pandemia tenha forçado o time a jogar com portões fechados parte da temporada, apenas 14 jogos foram suficientes para gerar R$ 43 milhões de bilheteria. No número mostrado no gráfico acima, ainda são adicionados apoiadores e atividades sociais nesta coluna.

Nas transferências de atletas, o clube mineiro respondeu por R$ 38 milhões líquidos (descontando participações e comissões de terceiros). Não foi um resultado ruim, mas está abaixo do que arrecadam os maiores vendedores de jogadores do país – mais de três vezes esse valor.

A comparação entre orçamento (com projeções feitas pela diretoria antes do início da temporada) e saldo (com números realizados) mostra como a diretoria lidou com as finanças nesse período.

Nas receitas, houve muito mais expectativas superadas do que frustradas. Transmissão e prêmios, advertising and marketing e comercial e estádio geraram significativamente mais dinheiro do que a administração do atletismo esperava. Nas transferências de jogadores, a frustração foi considerável.

em R$ milhões Orçado Realizado Diferença
direitos de transmissão 183 279 96
advertising and marketing e comercial 24 77 53
Bilheteiras e estádio 19 43 24
Apoiador e parceiros sociais 33 21 -12
Outros 15 18 3
Transferências de jogadores 120 38 -82
Complete 394 475 81
folha de pagamento de futebol -191 -308 -116
Resultado financeiro -24 -55 -31
Resultado líquido 5 101 96

Do lado das despesas, a ge separa a remuneração do departamento de futebol, pois é o fator que tem maior correlação com o desempenho em campo. Os salários, direitos de imagem, encargos trabalhistas, animais, direitos de enviornment e deduções estão dentro desta linha.

O Atlético-MG teve um custo de R$ 191 milhões em remuneração e acabou superando em muito sua própria projeção, tendo gasto R$ 308 milhões no whole. É a terceira maior folha do futebol brasileiro, atrás apenas de Flamengo e Palmeiras.

Parte dessa diferença entre orçado e realizado é explicada pelas premiações pagas aos atletas, por mérito esportivo, em competições de mata-mata. Outra parte, porque os direitos de enviornment e as deduções aumentam à medida que as receitas de transmissão aumentam.

O resultado financeiro inclui juros de dívidas e outros itens financeiros e não esportivos. Por causa do endividamento excessivo, principalmente, uma quantidade significativa é desperdiçada.

Em 2021, o Atlético-MG teve R$ 19 milhões de juros de mora e outros R$ 58 milhões de juros de financiamentos. Entre as receitas financeiras, estão R$ 23 milhões em descontos e perdão de dívidas – mas esse dinheiro não entrou no caixa; Ele só vai parar de sair com o tempo. Com a combinação de outros números menos relevantes, chegamos ao resultado mostrado na tabela acima.

O resultado líquido também merece atenção. Por mais que o balanço financeiro mostre um superávit (lucro) de R$ 101 milhões no ano, isso não significa que sobra dinheiro.

Para chegar a esse lucro, foram considerados R$ 240 milhões em “ganhos contábeis” de imóveis vinculados ao novo estádio. Não há efeito caixa imediato, ou seja, esse dinheiro não caiu na conta do Atlético. Foi lançado no balanço por razões contábeis. Haveria um déficit (prejuízo) violento se esse recorde extraordinário não existisse.

Se o número geral não assusta o suficiente – R$ 1,3 bilhão –, o detalhamento das dívidas do Atlético-MG preocupa um pouco mais os torcedores. Ou pelo menos deveria.

Em relação ao vencimento, serão exigidos nada menos que R$ 552 milhões ao longo de 2022, enquadrados no curto prazo. O resto é a longo prazo, então a partir de 2023.

E aí está o resultado mais grave de ter iniciado uma reestruturação administrativa e financeira sem abrir mão dos investimentos. Por mais que novas receitas tenham sido geradas, o custo também aumentou. Não há dinheiro “sobrando” no dia a dia para que as dívidas sejam reduzidas.

Perfil da dívida do Atlético-MG por vencimento

Fonte: Demonstrações financeiras

O endividamento do Atlético é generoso em todos os tipos de dívidas possíveis, mas uma delas se destaca: empréstimos de instituições financeiras ou concedidos por patronos. Os riscos são diferentes em cada caso. Enquanto os bancos cobram juros mais altos, empresários próximos à administração só corrigem pela Selic, a taxa básica.

A dívida bancária divide-se da seguinte forma:

  • R$ 399 milhões para instituições financeiras
  • R$ 238 milhões para pessoas físicas

O documento não especifica os nomes das pessoas físicas, ou o que é considerado uma “parte relacionada” (alguém com vínculo formal com a administração do clube), mas é possível deduzir que são os 4 Rs – Rubens Menin, Rafael Menin, Renato Salvador e Ricardo Guimarães.

Na área tributária, há parcelamentos de impostos que não foram pagos no passado. A maioria se refere ao Profut, ao qual o clube ingressou em 2015.

Entre as dívidas trabalhistas, estão as obrigações atuais (salários e encargos da mesma temporada) e as provisões que a diretoria faz para ações judiciais. O departamento jurídico estima quanto o Atlético-MG pagará ao perder processos movidos por ex-funcionários, e esse valor é pago à medida que as execuções avançam.

Por ser uma associação com investimentos altíssimos em reforços, as dívidas com outros clubes e agentes dispararam nos últimos anos e chegaram a R$ 112 milhões e R$ 101 milhões, respectivamente. Ainda há R$ 34 milhões devidos em dinheiro devido a assinaturas de contratos. Todos esses números aparecem no gráfico abaixo em “outros” com fornecedores.

Perfil da dívida do Atlético-MG por tipo em 2021

Fonte: Demonstrações financeiras

Os responsáveis ​​pelo Atlético-MG sabem que não será possível contar para sempre com recursos de mecenas. Assim, o projeto que entra em seu terceiro ano chegou a um ponto de inflexão: ou se encontra uma maneira de torná-lo sustentável ou a filosofia de investimento estará em risco.

Idealmente, o clube conseguiria aumentar suas receitas a níveis tão altos que, graças a isso, seria possível pagar todos os custos e ainda reduzir gradualmente as dívidas. Esse é o sonho de todo cartola e também de quem exige ousadia e alegria dos dirigentes de futebol.

O faturamento aumentou, mas não a ponto de fechar essa conta. Perto de meio bilhão, muito pelo retrospecto do próprio Atlético-MG, quase metade do Flamengo e do Palmeiras são arrecadados.

A questão, então, passa a ser como reduzir esse endividamento bilionário de forma que não dependa de receitas e não exijam tal austeridade. Uma resposta já foi encontrada. Há menos de um mês, o Conselho Deliberativo aprovou a venda da outra metade do buying que a associação possui.

A estimativa é obter R$ 320 milhões com a operação, valor que seria utilizado para reduzir dívidas onerosas (com destaque para empréstimos de instituições financeiras). Com o dinheiro em mãos, é ainda possível barganhar descontos e descontar grande parte das obrigações. Mas está claro, a partir de agora, que esse dinheiro não será suficiente para resolver a crise.

Outra saída é o clube-empresa. Aqueles quase R$ 240 milhões emprestados por patronos e partes relacionadas, por exemplo, poderiam ser convertidos em participação no capital de um eventual SAF. Em português mais claro: os empresários se tornariam donos de uma porcentagem do clube em troca do perdão dessas dívidas.

Além disso, é possível arrecadar dinheiro vendendo uma porcentagem para outro proprietário. Com a entrada deste sócio, a injeção de recursos permitiria a amortização de mais dívidas, para colocar o clube numa situação financeiramente saudável, o que não obriga a abdicar das suas ambições desportivas.

Não são meras hipóteses. A venda do buying e a migração para o clube-empresa são medidas que estão em andamento, dependendo de negociações externas, com outras entidades, e internas, políticas. Os fãs devem segui-los com cuidado. A sustentabilidade do projeto, que começou há três anos e rendeu as primeiras xícaras, depende dessa solução.

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