beleza infantil com amor

Eu tinha cinco anos. Pepa tinha dois ou três a mais do que eu. Foi tão bom brincar com ela!…

libélula

Naquele dia fomos para a beira do rio. Ela ia lavar os lenços que sua mãe fizera com um lençol de linho gasto. Sua mãe não queria que ela assoasse o nariz na saia do avental porque period muito feia. O pai tinha lenços de algodão que a mãe comprava nas lojas da Ti Rita, Ti Marizé, Ti Emília Pinto ou Senhor Anacleto, as que fossem mais acessíveis. Mas para os cachos, ela preferiu comprar um pequeno pedaço de arranhão e fazer a bainha.

Às vezes, usava pedaços de aventais e camisas, antes de fazer tiras com as quais enchia as canelas do tear dos cobertores de trapos. E Pepa ficou tão feliz com os novos lenços.

Assim que chegamos ao riacho, ela se ajoelhou ao lado da máquina de lavar e mergulhou os lenços na água um por um. Então ela estava colocando sabão e esfregando.

Eu vi uma libélula e corri tentando pegá-la. Claro, ela estava pousando nas paredes e quando eu achava que ela já estava pegando ela, realmente… o quê?, ela voava imediatamente como se quisesse brincar de pega-pega. Não demorou muito para eu correr para o córrego. Pepa veio em meu socorro e, como period mais alta, estava convencida de que ia pegá-la. Ela nunca mais se lembrou dos lenços sujos. De lá para um “pequena” éramos como duas sopas encharcadas.

Não doeu. Já estava calor e aproveitamos para pegar um jogo de cinco chinas. Depois de muito tempo tínhamos um conjunto completo de cinco pedras de cores diferentes, mas muito fofas. Se não fossem os lenços sujos, já teríamos um jogo até Trindade! Então, ela estava ensaboando e eu estava ajudando a esfregar e enxaguar. E eles eram muito brancos, como a mãe de Pepa nos contou.

Quando chegámos a casa, o meu tio estava a tirar os ramos das vassouras para a cama da Mourisca. Ele parou para nos dar aquele grande sorriso com que sempre nos cumprimentava. E como não tinha nada à mão para nos dar, pois as pessoas de antigamente, na nossa aldeia, quando alguém chegava tinham sempre para oferecer o que não tinham quase nada: uma codorniz de pão, uma tigela de leite, um “cartucho” de queijo, uma pêra, uma maçã… Como eu ia dizendo, o tio nos perguntou se já tínhamos um «Mocho» para nós irmos jogar. E nós, olhos brilhando, respondemos em coro que ainda não tínhamos. Levou um momento enquanto ele cortava um pedaço de pau e uma coruja para cada um de nós. E como éramos felizes! Já estávamos a caminho do Enxido quando começaram as Ave Marias. Um balde de tristeza caiu sobre nós. Tínhamos dois brinquedos novos e não tínhamos tempo para brincar com eles naquele dia…

Claro que period hora de correr para casa e dar as mãos para rezar a oração da noite em família… Nem havia desculpa para chegar atrasado!

Diga-me, se nossa infância não tivesse beleza quando estávamos cercados de amor?

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«Pessoas e lugares do meu passado», crônica de Georgina Ferro
(Cronista em Capeia Arraiana desde novembro de 2020.)

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