Esporte, política, Leifert, eleições e tiros na cabeça – 04/06/2022

Outro dia recebi a visita de uma amiga de décadas. Uma mulher rica, que mesmo assim trabalha duro e incansavelmente, mas que nunca gostou de misturar esporte e política. Ex-atleta profissional de sucesso, minha amiga sempre que me escutava falando de política dizia: “ah, para com isso. Vamos falar de outras coisas”. Eu insistia, dizia que ela precisava entender, e ela respondia: “Não entendo e nem quero entender”.

Só que, nesse dia recente em que foi me visitar, ela puxou o assunto político. Estranhei porque ando cansada de tentar dialogar com quem pensa diferente. Minha amiga não desistiu e saiu falando sozinha.

Escutei ela dizer que ia votar no Lula. Parei o que estava fazendo e prestei atenção. No Lula?, perguntei levemente atônita. Agora você gosta dele? Ela riu e disse que não gostava dele, mas que sabia que não teria alternativa porque, do lado de lá, havia um monstro. Abaixo, relato o que disse minha amiga em seguida.

“Eu sou rica, Milly. Ganhando um ou outro eu vou continuar rica. Mas ganhando o outro, muita gente que não é rica nem branca como eu vai morrer. Ganhando o outro, a gente terá de novo colocado no poder um cara que disse que prefere ver gays mortos. Um cara que fez declaração racista. Que detesta mulher. Como posso votar nisso? Não consigo. Não gosto nem um pouco do Lula, mas vou cravar essa droga desse 13 porque se eu anular eu não vou nem conseguir me olhar no espelho depois. Não tem outro jeito”.

Um desabafo como esse é um manifesto de consciência de classe. De uma pessoa que disse por décadas que detestava política e que política e esporte não deveriam se misturar.

Durante anos, tentei colonizar minha amiga com ideias que eu julgava melhores do que as dela sobre política. Nunca funcionou muito. Mas agora, diante da realidade em que nos metemos, diante de tanta miséria, de tanta dor, de tanta barbaridade, ela se transformou em algum nível. Minha amiga entendeu que não se trata mais de “esquerda” contra “direita”. A situação atual contém níveis de uma tragédia que nós ainda não tínhamos experimentado.

Esse “nós” a que me refiro é a classe branca e dominante que há 500 anos dá as cartas políticas, econômicas e sociais no Brasil.

Porque existe uma multidão de pessoas nesse país que vive o horror há bastante tempo e para quem a tal democracia nunca chegou.

São pessoas que podem ter suas casas invadidas a qualquer momento, podem ver seus filhos serem assassinados por homens de farda à luz do dia sem sequer ter como recurso a luta por justiça through sistema penal. Essa realidade não é a de uma democracia, acho que poucos discordariam. Com Bolsonaro, essa realidade ganhou contornos ainda mais sangrentos, violentos, grotescos.

Para uma boa parte do Brasil, nunca existiu democracia. E nós, os brancos ricos, jamais ligamos para isso. Vivíamos como se democracia houvesse. Ou, ainda mais arrogantemente, como se tivéssemos lutado para que ela existisse amplamente.

O que chamamos de democracia no mundo ocidental, aliás, sempre foi um regime comandado por homens brancos e ricos. Homens que nunca esconderam o que pensam de verdade: que são eles que sabem melhor decidir sobre os rumos da nação. Eles são os que sabem votar, os que sabem do que uma economia precisa, os que sabem como resolver questões sociais a despeito de nunca terem pisado numa periferia, numa favela, em qualquer área de pobreza.

Eles clamam para si a imagem de pessoas dotadas de razão. Parecem sempre muito ponderados, nunca muito emocionados, porque, afinal, são os detentores do conhecimento.

O Brasil sempre teve um desses no poder. Mesmo quando Dilma assumiu, ela se cercou desse tipo de homem, especialmente no segundo mandato.

Ter um homem assim na liderança nunca mudou nossa realidade. Mas, porque o sistema se reproduz com muita inteligência, tem quem acredite que um Eduardo Leite ou um Luciano Huck seria a solução, e que apenas uma terceira through nos salvará.

Vejam: a terceira through está no comando há 500 anos. Não fomos salvos, muito pelo contrário: estamos sendo assassinados, isolados, destruídos, esgotados. Nunca seremos salvos por esse tipo de homem rico, poderoso, branco – aquele a quem se atribui sucesso simplesmente por ser rico. O empresário, o gestor, o comunicador.

E fiquemos com a realidade: em 2022 não teremos a opção dessa terceira through.

Não haverá Luciano Huck, Eduardo Leite, João Doria nem nenhum outro candidato com esse perfil (e, de novo: olhem bem para esse perfil porque é ele que está no comando há muitos e muitos anos, com índices de sucesso bastante altos para pessoas como Tiago e eu, e miseráveis para a população).

O cenário é Lula x Bolsonaro – e há uma explicação para que seja assim.

Sobre o primeiro, o povo tem memória de como viveu quando ele period presidente. Havia emprego, havia dinheiro, havia passeios com a família, havia dias de folga, havia vida.

Sobre o segundo, verdade seja dita, trata-se do único a pregar uma agenda anti-institucional que, por razões bastante óbvias, cola em boa parte da população que nunca se viu representada, nunca foi atendida, nunca viveu numa democracia. Ter 30% dos votos mesmo depois de ter feito tudo de medonho que fez é bastante coisa. O cenário é esse por mais que haja aqueles que ainda sonhem com a terceira through.

Um desses dois vai ser eleito presidente do Brasil ainda esse ano. Diante de tudo o que estamos vivendo, como pode ser possível que ainda haja quem acredite que anular é opção?

Vamos por partes.

Tiago Leifert é, assim como eu, alguém que nasceu nesse Brasil rico e democrático. Pessoas como a gente são levadas a acreditar que tudo o que a gente conseguiu na vida foi por mérito nosso. Não por causa da nossa cor, da nossa classe ou porque nossos pais de alguma forma foram abrindo portas para que a gente entrasse.

Isso não quer dizer que sejamos ruins no que fazemos. De forma alguma.

Tiago é um comunicador brilhante. Trabalhei com ele e sei que é uma pessoa de inteligência muito acima da média. Tem humor afiado, é um profissional sério e que trabalha duro. Nem sempre basta ter um pai que abra portas.

Mas seríamos quem somos se não tivéssemos nascido brancos e maravilhosamente inseridos nessa pirâmide social? Eu não seria. Disso tenho certeza.

Ser criado dentro dessa bolha de um Brasil branco e rico vai fazendo a gente se construir como sujeitos de direita, é apenas pure que seja assim. Trata-se da única ideologia que nos legitima nesse lugar de poder, que confirma nossos méritos, esforços, suor.

É um lugar de conforto e da onde a gente, por motivos óbvios, prefere não sair. Não somos transformados com diálogos, argumentos e explicações. Não adianta falar mais alto ou mais pausadamente para mudar nossa cabeça. Somos transformados por afetos.

Quando, um dia, andamos pelo centro da cidade de São Paulo e prestamos atenção no que acontece ali. Se esses candidatos em quem eu insistentemente voto – e que, insistentemente vencem – não mudam nada, por que sigo votando neles?

Quando falamos com pessoas em situação de rua. Quando vamos para o campo e batemos um papo com um pequeno agricultor. Quando lemos a dissertação de mestrado de Guilherme Boulos ou de Marielle.

Quando vamos atrás de uma literatura que explique como essas democracias ocidentais foram construídas. Que nos faça entender o papel que o colonialismo e a escravidão tiveram na criação desse país que se chama Brasil. Como nossos antepassados europeus foram apoiados, por cotas, a virem para cá embranquecer a nação.

Sair desse lugar de conforto de “nem Lula, nem Bolsonaro” exige um certo esforço. O mais agradável para nossas vidas pessoais é mesmo se manter ali.

Essa é a lógica que coloca Lula e Bolsonaro como extremos opostos de um mesmo jogo. Nossas estruturas midiáticas fornecem diariamente materials para amparar essa visão. Corrupção, corrupção, corrupção. Todo debate é conduzido para esse lugar como se a corrupção fosse, primeiro, o que nos trouxe aqui (não foi) e, segundo, nosso maior problema (não é).

Se o argumento é o assalto aos cofres públicos que não permitem que o Brasil decole, então, antes de mais nada, teríamos que falar de evasão e de sonegação, que nos ferem muito mais do que a corrupção. Por que não se fala disso? Porque não interessa a quem está no poder.

Voltemos então à cena Lula x Bolsonaro.

Se de um lado a gente tem alguém que reinseriu o Brasil no mapa da fome, colaborou para que um vírus mortal se espalhasse mais rapida e violentamente pela população, que pede para o eleitor se armar dizendo claramente que precisará de ajuda porque não vai aceitar o resultado de uma eleição que não o favoreça, e de outro você tem um ex-presidente que, goste-se ou não, respeitou todos os ritos democráticos, como pode ser possível colocar os dois em pé de igualdade?

Ah, mas e a Petrobras?

Sobre ela, eu diria duas coisas.

A primeira é que Ricardo Boechat, em 1989, ganhou um prêmio Esso de jornalismo por matérias feitas sobre a corrupção na Petrobras. Estavam ali, bem documentadas, as colossais suspeitas de corrupção que movimentavam o dia a dia dessa gigante. O presidente do Brasil quando o escândalo veio à tona period José Sarney.

Na época, instaurou-se uma CPI. Foram investigados 37 parlamentares por suposto envolvimento em esquemas de fraudes na Comissão de Orçamento do Congresso Nacional. O relatório last pediu a cassação de 18 deles, mas apenas seis perderam seus mandatos.

Do lado da Petrobras, a empresa seguiu como se nada tivesse acontecido. O tema “corrupção na Petrobras” nunca colou na imagem do presidente em exercício. Nem mesmo quando FHC, em um livro lançado em 2015, reconheceu ter tido conhecimento, enquanto presidente, dos esquemas de corrupção.

Então, sabemos, a corrupção existe em todos os setores da nossa sociedade. Ela é o cimento que une um Brasil econômico a um Brasil político. Há décadas. Jogar toda a responsabilidade dessa corrupção histórica e sistêmica no colo de um único presidente, e de nenhum outro, me parece estranho. Por que só Lula? Da onde vem a raiva que se sente por ele? Por que não por FHC? Por que não por Itamar ou Sarney?

E a segunda coisa que eu diria é que uma enorme máquina de investigação e punição foi mobilizada para cair em cima de Lula não apenas em relação à Petrobras, mas para investigar absolutamente tudo a respeito de seu mandato.

Nada pôde ser provado. Numa democracia, vale a ausência de provas para considerar alguém inocente. No Brasil rico, essa premissa vale para mim, para o Tiago, para o Lula, para minha mãe.

Mas no Brasil que nunca conheceu uma democracia, nas favelas e periferias, essa presunção não existe. Quem mora ali, especialmente quem tem a pele mais negra, é culpado até que se show o contrário.

Lula então não tem responsabilidade sobre nada de ruim?

Tem, eu diria. Mas não pelas coisas que tentam atribuir a ele. Tem por Belo Monte, tem pelo descaso com que tratou a reforma agrária, tem pela negligência com que lidou com as populações originárias, por nunca ter se metido diretamente na questão do genocídio das populações negras e periféricas do país. Tem responsabilidades por alguns desses horrores sim.

Mas também foi ele que atuou pela aprovação de políticas públicas de inclusão como nunca antes outro tinha feito. Foi ele que comandou uma administração que quitou a dívida com o FMI, que tirou o Brasil do mapa da fome e nos elevou ao patamar de uma das mais respeitadas economias do mundo.

Como é possível preferir um tiro na cabeça a votar por um cara com um currículo como o de Lula?

Como é possível preferir a morte a ter a colaborar ativamente pela demissão de Jair Bolsonaro?

Se me perguntassem, eu preferiria ter como opção à presidência uma mulher negra e de esquerda. Mas não temos. Não ainda. Não esse ano.

Nós, mulheres, já entendemos o que Bolsonaro de fato representa. Tínhamos entendido isso em 2018, e fomos às ruas implorar para que não se votasse em Bolsonaro.

Agora, precisaremos de nossos colegas para que ele não seja reeleito.

Precisaremos da ajuda de alguns homens brancos e poderosos que sempre estiveram nas salas de controle. De esportistas, de atletas, de ex-atletas, de comunicadores. Precisaremos do alcance dessas vozes hegemônicas.

Precisaremos de mais corajosos como Casagrande, essa é a verdade (aliás, assistam ao documentário feito por Susanna Lira que está na Globoplay).

Tiago, minha amiga e eu provavelmente passaremos ricos por essa vida – ganhe Lula ou Bolsonaro. Mas se Bolsonaro vencer, veremos o Brasil mergulhar num oceano de terror social ainda desconhecido. Por mais que detestemos Lula, não podemos aceitar que seja assim. Simplesmente não podemos.

O que podemos é antecipar com bastante certeza que, em caso de vitória de Bolsonaro, não apenas teremos esgotado a pequena democracia que construímos como inaugurado um horizonte de possibilidades de barbáries nunca antes vistas nesse país que já viveu, e ainda vive, tanto horror.

Por tudo isso eu diria que não pode ser aceitável pensar em anular o voto, muito menos escolher a morte para não votar em Lula.

Quando um cara jovem, brilhante e poderoso como Leifert cair para o lado de cá, a luta por justiça social terá ganhado um importante reforço.

Preferir um tiro na cabeça a votar em Lula não faz parte do menu de opções para outubro.

Um, porque já tem gente demais levando tiro na cabeça nesse país.

Dois, porque uma cabeça inteligente como a de Leifert precisa não apenas sobreviver, mas também vir para o chão da fábrica.

Privilégio gera oportunidade, e oportunidade exige responsabilidade. Vem, Tiago. Vem apertar o 13 e tirar tanto horror e covardia do poder.

Concluo com Eduardo Galeano, sempre genial: “somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos”

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