Existe beleza no luto? Uma reflexão sobre nossas fissuras existenciais – 04/08/2022

Aquilo que causa a noite dentro de nós também pode deixar estrelas. Victor Hugo

Existe beleza colateral no luto? Pode haver algo que transcenda a tristeza na ausência definitiva de alguém que amamos? A pergunta pode soar mal aos ouvidos de quem está na fase aguda do sofrimento da perda. Mas o fato é que é pela fresta em todas as coisas que a luz entra, como disse o poeta e músico Leonard Cohen. Como na arte japonesa do kintsugi, que consiste em restaurar cerâmica quebrada com ouro ou prata, é possível transformar cicatrizes em algo maior do que sua perfeição anterior.

A coluna de hoje é um convite para refletir sobre nossas rachaduras existenciais (e a luz que se infiltra por elas) através de citações de autores que li e acompanhei desde o início do meu processo de luto. Com diferentes tons: poéticos, intensos e trágicos, outros leves e bem-humorados, eles me ajudaram e ajudam a deixar a luz entrar sem fugir da dor. Não o bonito.

Cada uma das citações a seguir é também uma recomendação para ler na íntegra os maravilhosos livros dos quais foram tiradas.

Quando esqueço a dor, me afasto da minha filha
(O Pai da Menina Morta, Tiago Ferro, No entanto, 2018)

Sexta-feira
Eu não quero ser o pai da garota morta. Eu sempre serei o Pai da Garota Morta. Não estou buscando ou exigindo qualquer tipo de justiça. Eu simplesmente aceito a dor aguda na ausência. No vazio. Nós também somos feitos de espaços em branco. Nosso corpo não é uma massa densa. É necessário lembrar disso. São centenas de buracos, buracos, esconderijos, zonas mortas, terrenos baldios.
(O Pai da Garota Morta, Tiago Ferro, No entanto, 2018)

Quando o mundo começa a despovoar as pessoas que nos amam, pouco a pouco nos tornamos estranhos, ao ritmo dessas mortes. Meu lugar no mundo estava em seus olhos e ele parecia tão inegável e eterno que eu nunca me preocupei em ver o que period.
(Isso Também Vai Passar, Milena Busquets, Companhia das Letras 2014)

Mauro adorou essa história. Eu gosto de ser quem a está ouvindo agora, e novamente me ocorre que talvez seja isso que eles querem dizer quando dizem que você pode notar os mortos, que é dentro de você que você pode manter os outros vivos.
(Aprendendo a falar com as plantas, Marta Orriols, Dubliner, 2022)

Eu não fujo, Mauro. Estou indo embora. Volto de vez em quando para cumprimentar as plantas e também não esqueço a morte delas. Esquecê-lo seria deixá-lo morrer uma segunda vez, e isso, pode ter certeza, não vai acontecer.
(Aprendendo a falar com as plantas” Marta Orriols, Dubliner, 2022)

A dor não é etérea; é uma coisa densa, opressiva, opaca. O peso é maior de manhã, brand ao acordar: um coração de chumbo, uma realidade teimosa que se recusa a ir embora.
(?) Como é possível que o mundo proceed, encourage e expire de forma idêntica, enquanto dentro da minha alma tudo se desintegrou permanentemente?
(Notas sobre Luto, Chimamanda Ngozi Adichie, Companhia das Letras, 2021)

Pedir a Deus para não sofrer é como pedir para voar. Mas a gente pergunta assim mesmo e aí ficamos com raiva do coitado. O sofrimento é tão certo quanto a morte e tão inegociável quanto (…) O que peço fervorosamente a Deus é que preste contas. Pergunte também, filha. Peça para cuidar disso. Passamos nossas vidas lutando com o dilema de existir ou desistir, com o que é bom e o que é ruim, certo e errado, morte e vida. Essas coisas não separam. O lugar que dói é o mesmo lugar que estremece. É no corpo, no amor e na liberdade de escolher as coisas que estamos inteiros ou quebrados. Então, peça à parte boa para cuidar da parte ruim.
(Tudo é Rio, Carla Madeira, Editora Report, 2021)

Os mortos são sempre preferidos aos vivos. Preferimos os mortos por causa de nossa conexão, nossa identificação com eles. Sua impotência, sua passividade, sua vulnerabilidade são nossas. Todos aspiramos ao estado de fome, à condição de impotência, na qual somos forçosamente frágeis e merecedores de amor.
(The Silent Girl: Sylvia Plath, Ted Hughes and the Limits of Biography, Janet Malcolm, Pocket Firm, 2012)

(…) junto com a estranheza provocada pela resposta sobre a causa de sua morte (ela morreu em decorrência de uma infecção nos pés), há sempre a pergunta ainda mais incômoda: “Quantos anos ela tinha?”, ao que sou obrigado a responder, já antecipando o olhar aliviado que se seguirá: 93 Noventa e três anos de vida simplificam tudo. “Ah, bem, então ela viveu muito tempo, teve uma linda família…”
(Lili, Novel of a Mourning, Naomi Jaffe, Companhia das Letras, 2021)

A absurda facilidade de registrar imagens revela um traço muito curioso de nosso tempo: materialistas ao extremo, somos incapazes de conviver com a transitoriedade da vida. Aos nossos olhos, tudo é descartável, exceto nós mesmos.
(Rock Backside, o lugar mais visitado do mundo: notas de viagem, Cris Guerra, melhorias, 2021)

O luto é muito desconfortável. Principalmente para os outros. Assim, assim que têm a oportunidade, procuram olhar em volta, identificar pessoas que também passaram por perdas semelhantes para empurrá-las umas para as outras, recolher sua dor e, de preferência, evitar espalhar sua tristeza para outra pessoa.
(The Scorching Younger Widows Membership, Nora Mcinerny, disponível apenas em inglês)

Como não tive filhos, a coisa mais importante que me aconteceu na vida foi a minha morte, e com isso quero dizer a morte dos meus entes queridos. Talvez você ache isso lúgubre, mórbido. Eu não vejo assim. Muito pelo contrário: para mim é algo tão lógico, tão pure, tão certo. Somente em nascimentos e mortes saímos do tempo. A Terra para de girar e as trivialidades que desperdiçamos nossas horas caem no chão como purpurina. Quando uma criança nasce ou uma pessoa morre, o presente se divide ao meio e nos permite espiar por um momento através da fenda da verdade – monumental, ardente e impassível. Nunca nos sentimos tão autênticos como quando fazemos fronteira com esses limites biológicos: estamos claramente conscientes de experimentar algo grandioso.
(A Idéia Ridícula de Nunca Mais Te Ver, Rosa Montero, No entanto, 2019)

Oh não, a dor e a vida não têm nada a ver com isso. De fato, a vida é tão tenaz, tão bela, tão poderosa, que mesmo nos primeiros momentos de dor você pode desfrutar de momentos de alegria: o deleite de uma bela tarde, uma risada, uma música, a cumplicidade com um amigo. A vida abre seu caminho com a mesma teimosia com que uma plantinha é capaz de rachar o chão de cimento e enfiar a cabeça para fora. Mas, ao mesmo tempo, a tristeza também segue seu curso. E é com isso que nossa sociedade não lida bem: brand escondemos ou proibimos tacitamente o sofrimento.
(A ideia ridícula de nunca mais te veré, Rosa Montero, No entanto, 2019)

A arte é uma ferida feita de luz, disse Georges Braque. Precisamos desta luz, não só de quem escreve, pinta ou compõe música, mas também de quem lê, vê quadros ou ouve um concerto. Todos nós precisamos de beleza para tornar a vida suportável para nós. Fernando Pessoa expressou-o muito bem: “A literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta”. Não, não o suficiente. É por isso que estou escrevendo este livro. É por isso que você está lendo
(A ideia ridícula de nunca mais te veré, Rosa Montero, No entanto, 2019)

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