Por que há mais de um Miss Brasil? Saiba a diferença entre eles

Recentemente o Brasil elegeu a capixaba Mia Mamede para o Miss Universo 2022 no concurso chamado “Miss Universo Brasil”. Hoje será eleita a representante do Brasil no Miss Mundo, concurso internacional mais antigo em atividade, no “Miss Brasil Mundo” em Brasília. Se antes apenas period a “Miss Brasil”, agora os concursos levam o nome das suas franquias, o que já ajuda a diferenciá-los, pois são de fato diferentes. E não são novos.

“Não existe um concurso único, existem vários. Todos merecem seu respeito. Os dois maiores são o Miss Universo e o Miss Mundo, e tanto a Miss Universo Brasil quanto a Miss Brasil Mundo […] e outras, elas têm um papel importante”, ressalta a Splash Henrique Fontes, diretor do Concurso Nacional de Beleza, responsável por eleger a representante brasileira para o Miss Mundo.

Cada um dos concursos possui seus diferenciais, bem como as explicações para serem ou não populares no Brasil, por exemplo, devido aos seus perfis e também a forma como surgiram os concursos há quase 70 anos (o Miss Mundo em 1951 e o Miss Universo em 1952).

“A gente costuma colocar os dois concursos em caixinhas diferentes, mas a gente não precisa ser rígido e pensar que uma miss que foi para [a franquia] Miss Mundo não possa ir para a [franquia] Miss Universo. Podemos ser flexíveis, se adaptar ao que o concurso exige”, declarou a gaúcha Alina Furtado a Splash em julho.

Ela foi finalista tanto do Miss Brasil Mundo em 2021 onde chegou ao segundo lugar, quanto do Miss Universo Brasil 2022, ficando em 5º, ambas as vezes como Miss Rio Grande do Sul.

Alina Furtado, Miss Universo Rio Grande do Sul 2022 e Miss Rio Grande do Sul CNB 2021

Imagem: Divulgação/ Miss Universo Brasil

As principais diferenças

“A principal diferença entre as duas franquias está primeiro na visibilidade. É muito difícil fazer concurso no Brasil porque o Brasil é um país que não apoia e não abraça as suas misses e aí isso acaba explicando a ascensão dos asiáticos nos concursos de beleza”, explica Elaine Cristina, professora e diretora-executiva do Concurso Belezas do Brasil.

Um dos fatores que leva ao desconhecimento ou estranhamento da existência de diferentes concursos “Miss Brasil”, se deve ao fato de que geralmente no Brasil as pessoas estavam ambientadas com a franquia universo. “É a que alfabetiza e introduz os fãs de concursos”, lembra Elaine.

Foi este o concurso televisionado por muitos anos na TV aberta, que já tinha direitos de transmissão do Miss Universo, sem necessidade de especificar a franquia como fez a TV Bandeirantes até 2019, último ano de transmissão do nacional e internacional no canal.

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Martha Rocha (à esq.) teria perdido Miss Universo 1954 por ter duas polegadas a mais nos quadris, justificaram jornalistas brasileiros após vitória da americana Miriam Stevenson, que venceu por ser mais comunicativa

Imagem: Reprodução

Isso se justifica também pois as franquias tiveram por várias décadas os mesmos donos, que colocaram critérios próprios níveis de importância, dando prioridade ao Miss Universo para a vencedora do Miss Brasil e a segunda colocada ao Miss Mundo.

“É óbvio que quando você pega um 2º lugar representante do Brasil no Miss Mundo, não tem o mesmo valor do título ‘Miss Brasil’, que aliás hoje pertence a um grupo, se eu não me engano a Band, e ninguém tem esse título. Hoje você tem a Miss Universo Brasil, você tem a Miss Brasil Mundo, a Miss Grand Brasil…”, aponta Fontes. Nenhum concurso é apenas “Miss Brasil”, nem pode usar a marca isoladamente.

Outra grande diferença é o alcance. O Miss Mundo, mais conhecido na Europa, Ásia e África, é transmitido na China e na Índia ao vivo, o que garante enorme audiência, além de mostrar o present ultimate do concurso com mais representantes — são 140 países e regiões licenciados, com participação de 127 em uma única edição (2013).

O Miss Universo, mais widespread na América Latina e Estados Unidos, nunca conseguiu chegar aos 100 países, de acordo com Henrique Fontes, que também é criador do website especializado em concurso de beleza International Beauties, em atividade desde 1999.

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A Miss Universo 2020 Andrea Meza posa ao lado da Miss Universo 2019 Zozibini Tunzi

Imagem: Rodrigo Varela/Getty Photographs/AFP

“A franquia universo ainda tem um viés comercial”, recorda Elaine, fator bastante visível com a eleita vivendo em Nova York. Enquanto o Miss Mundo leva uma pegada social, principalmente após Julia Morley assumir a presidência, mas que já period um caminho desde 1972 com a criação do “Beleza com Propósito”, pontua Henrique Fontes.

No Brasil são cerca de 100 a 150 projetos ou ações sociais desenvolvidas por ano graças ao concurso, tendo inclusive a atual Miss Brasil Mundo Carolina Teixeira, embaixadora na luta contra a hanseníase no País, promovido arrecadação de fundos para compra de aparelho que detecta a hanseníase para um hospital em Rondônia.

“A própria Julia Morley fez uma doação de US$ 5 mil dólares para fechar o valor que a gente precisava. Então é esse o espírito do Miss Mundo. A Julia Morley sempre pregou que mais vale a luz de uma vela acesa do que a escuridão complete. Usar a beleza […] pra algo tão positivo que são as ações sociais, os projetos que vão fazer a diferença na vida das pessoas, por pouquinho que seja, é algo extremamente válido. Esse é o principal diferencial dele para o Miss Universo ou qualquer outro concurso Henrique Fontes

Mas, apesar dessas diferenças, os dois possuem pontos em comum: “A vencedora [deles] precisa ser uma líder. Alguém que seja voz de uma causa. […] As alunas, seja na versão Mundo ou na versão Universo, sempre compartilham conosco que, dentro da entrevista com os jurados, elas precisam expressar o motivo delas estarem ali, escolherem a franquia e qual o diferencial delas comparado às demais candidatas”, conta a professora de idiomas Luinara Menezes, da Signum Assessoria, que prepara misses brasileiras para concursos.

1 - Reprodução/ Miss World/ Instagram @karolinabielawska - Reprodução/ Miss World/ Instagram @karolinabielawska

Karolina Bielawska venceu o Miss Mundo 2021 e já visitou o Brasil, antes da pandemia; no seu país, Polônia, ela ajudou 400 pessoas a se vacinarem

Imagem: Reprodução/ Miss World/ Instagram @karolinabielawska

Regras de concursos

“Toda regra é um mecanismo de controle. Os concursos de beleza são concursos de mulheres, mas foram inventados por homens. […] Apesar do mundo miss ser essencialmente feminino ele é gerido por homens. Agora que a gente está tendo uma seleção de mulheres gerindo os concursos de beleza”, fala Elaine.

No início na década de 1950, as regras rígidas do limite de idade, proibição de mães e casadas se justificam pelos princípios dos concursos — que, infelizmente, permanecem até hoje. O Miss Universo, por exemplo, começou como oportunidade de lançar jovens em Hollywood, segundo Henrique Fontes.

O etarismo, a proibição de mães e mulheres casadas não cabe mais na nossa sociedade. Dentro do Brasil quem faz esse papel muito bem, […] é o Concurso Belezas do Brasil que a atual vencedora tem mais de 30 anos, é casada e tem um filho e ganhou de ponta a ponta o concurso. O mundo mudou e os concursos precisam se adequar a esse novo mundo ressalta Luinara Menezes

O Concurso Belezas do Brasil possui limite de idade maior que o Miss Universo e Miss Mundo — em torno de 27 e 28 anos —, e permite participação de mulheres de 17 a 35 anos, casadas, mães solo, mulheres trans e divorciadas. É um concurso que possui várias franquias internacionais e elege a Miss Brasil para concursos como o Miss Intercontinental, realizado desde 1971, e o Miss International.

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Nathália Prazeres é abraçada após vencer o Beleza do Brasil 2022 em Natal (RN)

Imagem: Reprodução/ Instagram @concursobelezasdobrasil @casefotos

“O fato do nosso concurso ter um regulamento abrangente acaba nos colocando numa categoria de concurso menor. Como se […] entender a mulher moderna, a mulher de hoje como uma mulher que consegue cumprir com todas as suas funções não fosse algo bom. É uma dádiva, mas acaba também se tornando um obstáculo. Na visão do público. Espero que na visão dos investidores seja um bônus”, torce Elaine Cristina.

Miss, mãe e casada

Quando foi eleita Beleza do Brasil 2022 na noite de 21 de julho, a carioca Nathalia Prazeres, de 32 anos, que é casada e mãe do pequeno Bento Frederico, fez um forte discurso falando que nunca havia imaginado ser miss e representar o Brasil em um concurso internacional.

“Eu conseguia me ver muito nesse concurso, porque eles explicavam muito bem a intenção, o que eles queriam das candidatas. […] Quando eu fui para o High 10, várias candidatas que não tinham passado, chegaram pra mim e falaram assim ‘Nathália, eu não passei. Mas você vai me representar naquele pódio’. Então aí que eu me vi mais ainda no concurso, sabe?”, conta a miss.

Formada em Pedagogia, ela é da zona norte do Rio de Janeiro, bairro de Pilares, e hoje trabalha como modelo. Atualmente ela se divide entre o Mato Grosso, onde mora a família do marido Marco Aurélio — grande incentivador e que a apoiou no concurso —, e São Paulo, onde acabou indo morar quando foi fazer curso de comissária de bordo.

Sua vitória representa uma virada de chave de uma infância em que ela não period vista como bonita. “Eu period muito o ícone de feiura da escola, eu period a menina estranha, muito grande, muito desengonçada. Depois comecei a trabalhar como modelo, nunca me vi como miss e eu acho que muito por essa questão da autoestima”, afirma ela, que mudou de pensamento ao conhecer o Belezas do Brasil.

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High 2 do Beleza do Brasil 2022 foi formado por Nathália Prazeres, representante do Mato Grosso, e Renata Ramos, representante de Santa Catarina

Imagem: Reprodução/ Instagram @concursobelezasdobrasil

Entretanto, a felicidade de ter sido eleita a Beleza do Brasil foi ofuscada por uma situação de racismo que ela passou. Ela soube que falaram, ainda no contexto do concurso, que para ganhar o 1º lugar “precisa passar piche no corpo”, materials derivado do petróleo utilizado na construção de rodovias. Foi o segundo ano seguido que a Beleza do Brasil eleita period negra. Nathália recebeu a coroa de Hosana Gomes, Miss Beleza de Pernambuco e Beleza do Brasil 2021.

O concurso tem um viés muito de empoderamento, muito de feminismo. Mas o feminismo precisa abraçar inclusive as mulheres negras, pretas, periféricas. Muitas vezes isso não acontece. […] O feminismo não serve pra nada se ele não andar junto com a luta antirracista. Foi muito complicado ouvir isso até porque a gente viu a vida inteira nos concursos de beleza mulheres brancas ganhando e nunca foi um problema. Então agora que está sendo seguidamente mulheres negras ganhando, eu tenho que ouvir coisas do tipo. É muito complicado porque eu achei minha trajetória muito linda no concurso desabafa Nathalia Prazeres, Miss Beleza do Mato Grosso e Beleza do Brasil 2022

Mudanças importantes

Enquanto os concursos como Miss Universo e Miss Mundo não alteram suas regras para permitir que mulheres como Nathália participem e vençam suas competições, suas provas são modificadas e até mesmo a questão da idade e relacionamentos é pautada em reuniões.

A maioria dos concursos começou com desfiles em traje de banho, noite e entrevista. O Miss Mundo inseriu etapas como provas de talento e esporte para promover boa forma física e, em 2014, aboliu o desfile de biquíni.

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Domitila Barros, 37, venceu o Miss Alemanha 2022

Imagem: Divulgação

Movimento semelhante ao do Miss Alemanha, que em 2020 extinguiu o desfile de biquíni que as candidatas precisavam exibir os corpos, etapa considerada sexista por ativistas feministas. Na mesma edição, o concurso foi além e passou a permitir a inscrição de mulheres mães, casadas e elevou o limite de idade para 39 anos. A vencedora de 2022 foi a ativista brasileira Domitila Barros, com 37 anos.

“As coisas mudam aos poucos em tudo. Apesar de eu achar que mulheres casadas ou mães já deveriam ter a permissão de participar tanto do Miss Mundo, quanto do Miss Universo, a última vez que a gente teve essa discussão foi em 2019 em Londres na reunião de diretores nacionais em que foi questionado mais uma vez isso a Julia Morley”, revela Henrique Fontes.

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Miss Brasil, Caroline Teixeira disputou o concurso Miss Mundo

Imagem: Arquivo pessoal/Instagram

Na ocasião, ela explicou que os compromissos poderiam impedir a dedicação ao reinado como projetos sociais e viagens a diversos países. “Eu entendo e respeito o lado dela, mas por outro lado a gente tem grandes mulheres na direção de muitas empresas e são casadas, têm filhos. Talvez o lado humano da Julia leve ela a não querer que uma mulher abra mão do cuidado com os filhos”.

“Eu acho que essa é uma regra que eventualmente vai ser quebrada. Particularmente daria a opção da mulher escolher se ela é casada e tem filho e quer ser uma miss, que seja, sabendo que ela vai ter responsabilidade, com contrato assinado. Mas essa é só minha opinião e eu respeito e sigo as regras do concurso internacional”, pontua Fontes.

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A Miss Espanha 2018, Angela Ponce, fez história ao ser a primeira trans a chegar ao Miss Universo desde mudança de regra em 2012

Imagem: Reprodução/Instagram

Neste ano, o Miss Brasil Mundo pode eleger pela 1ª vez uma mulher trans com a pernambucana Alice Ridenn, fazendo história também no Miss Mundo, que nunca teve uma mulher transgênero — diferente do Miss Universo, que teve a espanhola Angela Ponce em 2018. A ultimate é hoje e será transmitida ao vivo em todo o mundo a partir das 18 horas no horário de Brasília no canal do YouTube do Miss Mundo (Miss World).

Acho bacana a questão das candidatas transgêneros que passaram a ser aceitas no Miss Mundo e Miss Supranational, acho uma tremenda evolução. Às vezes as pessoas falam ‘ah, mas elas já têm o concurso delas’ […] e tudo bem, mas é [concurso] para mulheres. Ponto. Como que não vai aceitar uma mulher transgênero? Isso é você respeitar, incluir, é finalmente parar de criar categorias Henrique Fontes, empresário e franqueado do Miss Mundo no Brasil

Conheça as candidatas da 62ª edição do Miss Brasil Mundo que disputam ultimate em Brasília

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